septuagésima.
Meu maior desejo é habitar um lugar em que suas certezas não governem tudo entre nós. Onde eu não te ame mais. Onde eu não tenha tanta pena de qualquer uma que te amar tão profundamente que lhe dê sua cabeça. Onde eu não deseje mais que alguém faça por você o que você fez por mim, rasgar abertas as falhas reais e imaginárias, todas subordinadas a seu julgo. Porque por maior a fisgada da desimportância, me pego desejando que, por mais improvável que seja, você se dê a ela assim, com a mais torta das devoções, desesperado pra entregar algo melhor e assim quebre, se estilhace tão completamente, que perca pra sempre uma parte de si. Não acho que você sobreviveria. Sobrevaloriza sua dor como sobrevaloriza seus esforços, ambos por trás do discurso oposto, mata tudo o que tenta renascer no chão, se esconde de si mesmo tão comprometidamente que enxerga todas as gretas de quem a você se dá e as preenche como quer, à sombra da expectativa moral inalcançável que confirme a falha inerente a todo ser humano. Porque precisa de companhia na miséria, arranca toda a leveza. Se diz pequeno, julga como um deus. Se diz falho, representa toda a realidade. Se diz sensível, manipula com frieza. Se justifica do início ao fim. O espelho é o pior pesadelo da sua pequenez.
Coloque alguém no espaço da sua carência, finja que seu coração sensível se afeiçoa fácil. Ignore toda a falta que puder com quem menos pior couber. Alguém de quem nem goste muito, já fez isso antes. Chame de tolerância, paciência, empatia. Confirme algo bom sobre você e algo morno sobre todas as coisas. Observe enquanto a devoção a transforme em alguém mais adequada, que se traia pra não trair suas expectativas. Que consiga ser consistente nas mentiras que contar pra si mesma tentando permanecer, pra que você não tenha o desconforto da incoerência por perto, pra que não precise apontar. Alimente-a com o reconhecimento do quão pouco lhe entregará. A um coração devoto essa assunção tem o mesmo gosto da intenção de entregar mais. Você bem sabe, mas pode dormir tranquilo por nunca ter prometido isso. Se apóie nas tecnicalidades do que disse, mas espere que ela tenha cuidados que você nunca pediu e cumpra expectativas que nunca assumiu. As que ela esperar, são erro dela. Insista até chamar de algo maior. Aguarde a morte.
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