Eu preciso te agradecer pela distância.
Sem você por perto eu posso desvelar a mágoa que eu sinto de você.
Você me perguntou algumas vezes se tinha causado meus ataques de pânico e eu sempre dizia "acho que não". A temática era muito específica, eu já era quebrada. Mas por mais que eu os relacionasse à percepção da vontade de querer viver mais e a temática a algo que ficou congelado lá no fundo, não era só isso. A terapeuta que você tão gentilmente me garantiu investigou direto e reto: qual é a situação que tem te cobrado incessantemente nos últimos tempos, sem vislumbre de resolução, que te deixa em estado de alerta e que você não tinha vivido antes? Que te faz achar que nunca vai conseguir alcançar e que tudo está ameaçado? Porque isso te arremessaria de um estado crônico de ansiedade para o pânico.
E foi aí, além de observar um pico enorme de ansiedade neste dia, mas que nem assim virou crise, como nenhum virou desde que você se foi, que eu percebi. Estar com você me flanqueou pelos dois lados. De um, o primeiro vislumbre de querer envelhecer conhecendo alguém por dentro, a tortura mais doce que eu já vivi. Pelo outro, o desespero completo, a onda e a ressaca se anunciando num ritmo incessante, sem nunca dar pé.
Mas eu ainda vou entender melhor, no meu tempo, aquele tempo que nem a gente pode saber racionalmente qual é, papo que você não entende. E eu não tenho mágoa disso. Da sua visão estreita de que meu descontrole era sempre desprendido da realidade ou da relação, prova cabal de que eu era uma mulher adoecida com péssimas habilidades de comunicação. Eu tenho muitas inabilidades nesse sentido, inúmeras. Mas elas nunca me dominaram assim. Nunca foram tão gritantes, meu mar sempre deu pé. Vendo que, pressionada, eu entrava em desespero, me mostrou que estava errada em me sentir pressionada. Se tornava mais inteiro frente à pilha de carne na sua frente, não fossem os talhos que eu tinha causado na sua, que você me mostraria agora. Meu descontrole me roubava de mim e você não me ajudava a me encontrar, me exigia que eu não te puxasse pra corrente. Quando puxei, quando arranhei seu braço figurativo, quando ainda não me comportava tão bem, me apontou meu desrespeito e nunca mais parou de apontar. Não bastava eu reconhecer o erro, nada bastou. A mesma onda veio e voltou, até a última discussão.
Você não me dava tempo ou paz das suas cobranças, você me fazia empréstimos a juros abusivos. Enquanto esperava, me repetia como isso causava sofrimento, que eu estava sendo negligente com a importância das coisas, que você não podia se expressar, que eu estava te ferindo, desrespeirando, preterindo. Que tinha muita coisa muito ruim desde muito sempre, mas não ia falar disso agora porque estava me dando tempo. Isso não é paz. Isso não é dar espaço ao meu processo. A cobrança depois era maior, vinha com a expectativa de que nesse tempo eu tivesse revisado todas as questões, não usado os dias como distração. Me mostrava como suas feridas estavam aumentando pela minha incapacidade de curá-las a tempo. Vinha também com uma fila das novas situações, que se somavam obsessivamente aos exemplos antigos e revelavam os futuros naufrágios na água turva.
Insobrevivível.
Se, na nossa amizade, você me fazia sentir acolhida mesmo quando imprópria, amada mesmo quando quebrada, no nosso amor eu vesti essa pele do avesso. Cada traço de personalidade meu que não lhe parecia encaixar se tornava mais um transtorno. "Mas deve ter gente que gosta, não quero que você mude por mim não". O amor, sempre muito condicional. Eu, sempre em avaliação, e reprovando. Não, não era só o relacionamento que estava em avaliação, a reprovação era nítida e gritante, eu vivi todos os meus gatilhos de rejeição, erro, feiúra e iminência de abandono. E mesmo assim, você que sempre deixou claro que decidiria ir sob várias condições, não foi. Você que via com tanta clareza e tinha equipamento de mergulho, não soube conduzir. Eu não sei se você sabe como é tentar se manter razoável nessas condições. Talvez agora saiba.
Mas não foi só isso que eu vivi. Eu vivi coisas demais nesses últimos anos. A instabilidade estrutural é, por si só, debilitante. Não pense que me apoiou. E é aí que mora minha maior mágoa, você me reduziu. E eu deixei. Você ainda não vê que, perto de tudo que vivi, não havia tempo interno ou externo, sanidade, segurança emocional, pra que eu te entregasse tanto, mas mais que isso, você não percebeu que exigia que o foco de toda a minha vida fosse esse. Não sei se o conforto da sua vida te permite se debruçar tanto apenas no seu relacionamento ou se sua tendência obsessiva não permite o contrário, mas somos pessoas diferentes com tempos e processos diferentes e você se porta como alguém que entende isso, mas não age de acordo. Você me invalidou e desacreditou desde o início, como se fosse a referência de objetividade. Como se processos internos fossem objetivos. Como se o que não faz sentido pra você fosse mentira. Como se eu não fosse mais nada além de sua namorada falha. Como se não houvessem outras marés. Como se não priorizar a sua fosse eu errando com você. Como se tomar mais tempo fosse falta de vontade. Como se não saber crescer por medo fosse dissociação. Você passou por cima de todas as outras partes de mim.
Pra você eu não fui uma pessoa no momento mais difícil da vida dela, eu fui uma namorada ruim, que falhou em te dar segurança, estabilidade e cuidado, mesmo sem tê-los pra mim.
Eu perdi meu melhor amigo muito antes de você parar de falar comigo pela dor que eu te causei.
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