sexagésima sexta.
O que é uma conversa difícil? Uma conversa onde se aborde temas difíceis e você diga coisas difíceis pra mim, que me exijam esforço pra me regular, que me façam admitir mais, me desculpar novamente, que você sinta a tensão de que essa assunção não seja a ideal e esse seja o seu desafio?
O que é uma terapia mais intensa? Uma terapia em que o assunto seja pesado para todos, circule lugares dolorosos, mas você não ouça algo que machuque demais, uma terapia onde minhas mágoas e sentimentos não possam ser abordados até que os seus sejam apaziguados? Se sim, você tem essa clareza, seria capaz de pedir? Será que seria possível? Ou é possível terapia onde eu não tenha mais mágoa alguma porque perdi o direito?
O que é um cutucão que precisa se tornar uma conversa, mesmo indisposta, mesmo com tom avesso, partindo do cais da repulsa? Um desabafo? Uma fala mais emotiva? Uma fala repetida mesmo que mais clara, mais assertiva? "É difícil lidar com essas coisas que não eram possíveis comigo, que eram até besteira que eu fizesse, coisas das quais gosto e fui parando de fazer, sendo feitas agora por motivação própria, é difícil imaginar ali na curva, essas coisas sendo feitas para ou com outras pessoas, tendo me pedido dicas, receitas." Isso é um cutucão, um desaforo e eu cavei com isso uma conversa, independentemente do tom, da disposição?
O que é fabulação, exagero? Que esse desabafo remeta a um assunto recente e recorrente que evoca sentimentos parecidos? Que uma atitude recente neste preciso momento ecoe a mesma ferida? Não se podia repetir? Não se podia dizer que esse assunto estava lá e não falar? Você não pode falar "entendi que isso aí tá sensível, mas tá juntando muita coisa, não consigo ouvir sobre suas mágoas sobre isso agora"? Ou "acho que ainda não estamos prontos pra essa terapia"? Éramos obrigados a ter uma conversa ígnea? Porque foi desaforo? Porque repeti vezes demais? Porque a culpa da minha desregulação é minha e a culpa da sua desregulação é minha? Porque sou eu, eternamente acusada de impedir conversas que, em meio a um desabafo (e tendo dito que não desejava conversar pesadamente), deveria impedir essa conversa? Me desculpando? Retirando o desabafo? Não tendo o direito de sentir mágoa enquanto você tem uma maior?
O que é incompreensível, que num momento sensível a sensação de vai-e-vem não conversada (muito natural) que tem permeado tudo, me afetasse mais? Que a apreensão, a frieza se somasse dentro aos desafios do momento, que a expectativa de um toque machucasse? Que a tentativa fosse de expor o que estava sentindo ao invés de calar e dizer que estava tudo bem, de esconder mesmo transparecendo? Não era isso que eu deveria fazer? Foi porque não foi de melhor forma? Haveria melhor forma? Eu devo expor ao máximo os conteúdos, mas alguns conteúdos são proibidos pra mim até que eu trate dos seus?
A sensação de ser indesejada, dispensável, desconsiderada, facilmente substituível ao longo da sua vida teve seu direito revogado retroativamente? O pavor do futuro que nunca cessou de se mostrar como risco iminente, como decisão simples de fim por inúmeras condições, ameaça de distância irreparável (agora justificadamente, mas não é de agora) não pode mais apavorar? O aumento monstruoso dessa sensação não curada frente ao outro, real e imaginário, os exemplos tão recentes pra mostrar onde essa ferida ainda é exposta, não pode ser?
Depois dos meus descontroles eu preciso encarar e repetidamente tentar me redimir, sem sucesso, eles são lembrados como comprovações perenes de falhas profundas, de coisas que você "superou" e nem deveria. Preciso me desculpar em adequação ao seu processo, ao seu tempo de superar e, talvez, desculpar um dia para, aí sim, parar de listar e repetir. Depois dos seus eu lido com qualquer distância que se imponha porque o processo também é o seu? Porque também foi algo que eu causei, porque eu não tenho direito sobre essa parte? Eu vi a total indisposição do que você disse que era o processo a que deveríamos estar dispostos e ele explodiu. Mas não devemos mais falar sobre isso ou sobre (quase) nada? Tenho o direito de lidar só. Por quanto tempo? Com quanta distância? Com não saber? Porque segue sendo seu o direito de definir. Mas também não foi de agora. E se no passado me deixou voltar a participar, não foi sem minhas súplicas, que agora jamais caberiam. E como me sentia? Posta da porta pra fora, com facilidade, já vimos ali. Mas se me afastar por completo eu provo seu ponto, de que um dia eu faria isso e seria fria e te magoaria novamente, te trataria como outro qualquer? Ou esse é seu pedido, como parece? Eu devo te atender, você quer como último presente que eu te prove todas as piores coisas que você espera de mim pra que a dor seja menor? Pra fazer mais sentido? Pra ter estado certo sobre a necessidsde de se proteger de tudo que é ruim, juntamente de tudo que é bom e ter errado apenas em tentar se abrir? Pra você seguir não precisando ver?
O quê?
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