domingo, 1 de fevereiro de 2015

sexagésima terceira.

Do potencial nocivo dos desavisados... da ajuda egoísta.

A gente esbarra uma vida toda com vários perfis disso, mas alguns não dá pra deixar passar. E o típico Chicorento é um dos mais irritantes. A criatura vive pra ajudar os outros e participar intimamente de suas vidas, mesmo que não tão naturalmente assim. Vem a ti para que lhe conte seu problema, assim como quem genuinamente quer saber do que você precisa, mesmo que seja só de apoio, companhia silenciosa ou um comentário mais cru e lúcido. Mas pra saber a diferença se deve ser sensível àquele que se quer ajudar, o assunto não é sobre si.
A ajuda compulsória é diferente. Vem daquela pessoa que você quase nunca vê falando de um amigo sem falar de alguma coisa que fez por ele, de algum momento em que lhe salvou... a pessoa que dispende tempo mas exige assim ter um espaço de destaque na relação que tem com todos (até um certo ponto é necessidade de todos, imagino). De todas essas pessoas que já conheci, e frente às quais em algum momento senti a necessidade e marquei minha linha amarela no chão (aquela que avisa que ajuda mesmo é a que a que faz bem ao ajudado e não aquela que é uma declaração de autoridade e poder do ajudante), sentir que sabe mais dos outros que eles mesmos e que tem o direito de interferir como bem entende são características constantes.
Outra é a ira. Ira de fera ferida e vulnerabilidade súbita ao ouvir qualquer versão de "Disso aí eu não preciso. Você está me julgando e agredindo, afirmando suas projeções, interferindo em questões que não entende, não está me ajudando.", não importa a maneira com que se diga. E é essa reação que separa bem uma pessoa que só queria ajudar e se sentiu afastado pelo limite do outro e busca também entender de alguém que se coloca arrogante, cheio de razão, que considera saber mais sobre alguém que ele mesmo, que sem aparente reflexão acha natural falar deste alguém para ele e sobre ele, sua história e caráter, motivações e dificuldades, com propriedade.
Em diversos pontos essa pessoa pode estar certa no que diz? Claro. Essas pessoas podem estar certas até em tudo ou quase tudo que dizem num dado episódio. Mas nem se esse for o caso pode-se considerar ajuda ao outro, altruísmo empático, arremessar ao outro durezas que mais lhe pesam, penalizam ou perturbam do que ajudam.
Muito menos se a forma de fazê-lo for de diminuição do outro, da má fé desavisada que é oferecer ajuda e abertura e dar julgamento e autoritarismo, intervenção invasiva, insistência. E, veja bem, se é agressivo a quem recebe, é agressivo. Se o outro lhe diz que está agredido, como se reage?
Se o outro se sente frustrado por tentar se explicar e mostrar e receber a mesma repetição pronta de si, não é um ataque. A não ser que o autoritário se veja privado de SUA necessidade de ajudar, de ensinar a quem nem conhece o suficiente algo que nem se importa se lhe serve. Dizendo sua própria verdade. Insistindo com sua visão. Julgando com seus pressupostos.
Se não há a real possibilidade de compreender para ajudar, não oferecer ajuda poupa a todos do desgaste e ao messias doador o tempo pelo qual ele não poderá ser agradecido e receber a empatia que deseja, o feedback que exige.
Uma mesma pessoa, pela minha limitada mas pessoal e intransferível experiência, pode com facilidade ajudar a algumas pessoas de maneira altruísta e a outras não ser sensível, tentando lhes fazer engolir o que lhe incomoda no outro ou neles mesmos, em sua história ou situação. Em alguns momentos guardamos pra nós nossos julgamentos por respeito, em outras vezes os abrimos pelo mesmo motivo. Mas depende da forma. Da abertura. Da humildade de que esse julgamento não é maior que o outro, não pode se colocar assim.
E é daí que vem minha mais precisa lição. Vendo a imaturidade com a qual lidam os que respondem a queixas com ataques pessoais cheios de maldade, podemos refletir sobre nossos próprios tiranos, já que não nos fode tanto a cabeça lidar com algo que não temos mal resolvido em nós.
É que se controlar pra não agir assim e pra se queixar falando de atitudes, mas não atacando a pessoa, o caráter... e receber esse exato vômito... ser acusado de falta fe empatia por quem não tem a humildade de ouvir que não está fazendo bem e está invadindo espaço com suas ações, por mais bem intencionadas que sejam... reconhecer os erros de como se agiu na tentativa de se explicar ao outro ao invés de ser definido por ele insistentemente pra si e pra outros e receber a resposta de que é de si que não há troca, é um pouco demais pra engolir.
Sendo a tia sozinha que se mete em tudo, uma avó superprotetora ou a mãe que vê no que precisa oferecer aos outros o sentido da vida, e oferece demais, mais do que é verdade... que acha que só do que pode dar parte o laço que faz com os outros, o suficiente pra dar até o que não se pede e dragar pra perto e soterrar de conselhos e reclamar sempre do tratamento que recebe em troca, porque precisa da confirmação de ser importante, porque exige a humildade de quem aceita que ela se passe por clarividente de suas vidas e problemas. Negar-se a ajoelhar diante da ajuda profética e egoísta implica em ser punido por ser ingrato, arrogante, fechado... mas se a ajuda é leve e não se julga superior isso seria impossível, ela gostaria mesmo era que o outro retirasse dela o que lhe serve e de lhe poupar o que atrapalha, até porque mesmo se estando correto sobre a ferida do outro, apontá-la em momento e de forma inoportuna não ajuda que se cure. Pode ser até que se traga mais uma ferida à tona que não tinha a ver com o problema a se ajudar.
Se a ajuda é mesmo pelo bem do outro, não há ódio por ter perdido tempo com alguém que não lhe deu nada em troca. Porque ajuda altruísta é justamente o oposto, e por isso é tão rara. Não espera nada em troca e, portanto, pode receber de volta genuína empatia.
É mais fácil ajudar quando se conhece um pouco melhor o outro. Quando a empatia é real e profunda e direcionada ao outro, não a uma projeção dele, não o que nele se vê sobre si mesmo... mesmo assim, é sempre difícil. Porque às vezes vemos no outro algo que pra nós é óbvio, às vezes projetamos a nós mesmos, às vezes já o vemos com uma certa lente e não conseguimos de fato ouví-los.
Mas, se não houver disposição de tentar, abertura genuína ao ouvir sem julgamento prévio, o mais simples é não oferecer e oferecer, saber recuar mesmo achando que temos a resposta. Nunca temos a resposta do outro. Até se gritarmos e gritarmos, se forçarmos ao outro o que temos certeza que é sua real questão, só ele pode tornar suas questões inteligíveis e faxinar sua própria história. O que podemos então fazer pra ajudar? O que torne isso menos sozinho, mais leve, se dermos sorte conseguimos ajudá-lo a se sacudir da estagnação mas também sem despencar em agonia. Podemos ser crus, às vezes soar duros, mas isso não pode fazer mal quando não somos autoritários. E quando não somos autoritários também sabemos recuar.
Mais que isso? Invadir porões? Forçar projeções? Falar de si mesmo a partir da questão do outro? Não é da alçada de ninguém. Cada um que sabe ou que tente descobrir seu limite de interferência para que vibre melhor.

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